A redução de velocidade e os novos radares em São Paulo

Por 11 de setembro de 2015Opinião

Moro no bairro do Campo Belo, zona sul de São Paulo, desde que nasci. Já fui muito fã de transporte coletivo e sabia as linhas de ônibus de cor e salteado até degradarem de vez com a possibilidade de deslocamento por ônibus e metrô, quase sempre lotados e com operação problemática. Dirijo há quase duas décadas e hoje tento andar de carro em São Paulo, primeiro com um Gol Branco 1.8 Ano 1990 1.8 vendido em 2004, depois com um Fox Cinza (agora Vinho) 1.6 Ano 2005 e, finalmente, também com um Novo Fox Azul 1.6 Ano 2015. Até meados de 2016 havia levado poucas multas na minha vida – duas de velocidade até 20% acima na Imigrantes e na Pe. Manoel da Nóbrega, uma por estacionar na frente de casa, uma por seta na Ponte da Freguesia do Ó e uma por falta de cinto de segurança. Em junho e julho de 2016, a fúria arrecadatória da indústria da multa me trouxe cinco multas em frente à minha casa, uma multa por celular parado em frente ao Mercado Municipal e outra no final de domingo a tarde por supostamente passar o farol vermelho em um cruzamento pouco movimentado no Brooklin (Av. Portugal x Rua Álvaro Rodrigues).

O trânsito de São Paulo é considerado o pior do Brasil e um dos piores do mundo, típico de uma grande metrópole que começou mal planejada e evolui para onde tem espaço. Mesmo com diversas obras em várias regiões da cidade, o espaço para trafegar cresce menos que o número de veículos emplacados ou transferidos. Já peguei muito trânsito e já vi muito acidente por aí – mas nunca me envolvi em um -, além de presenciar coletivos, carros, motos e pedestres com atitudes irresponsáveis que brincam com a linha tênue que separa a vida da morte. A grande maioria destes acidentes, por sinal, causados por motos e pedestres no lugar e hora errados, veículos em alta velocidade que não respeitam nada nem ninguém e, mais recentemente, pela preocupante mania que alguns motoristas têm de resolver tudo em celulares e smartphones ao volante ao invés de ter atenção no trânsito. E, para apimentar o clima de emoção, não podemos esquecer as chuvas que agravam o trânsito e causam alagamentos, derrapadas e cassetadas por onde fica tudo molhado.

Nos momentos de pico os radares podem até parecer inofensivos, afinal o trânsito fica tão caótico que os veículos de quatro ou mais rodas não conseguem atingir o limite de velocidade quando têm chance de sair do lugar. E nos momentos de trânsito livre onde você consegue e precisa andar, até por questão de segurança, agora não pode mais rodar como antes. É tanto radar no chão, na terra e no ar, principalmente aqueles que adoram criar pegadinha em motorista escondidos ao lado de pontes, postes e grandes árvores, que o motorista não sabe se presta atenção no trânsito ou no painel de velocidade. Daí já se vê o quanto a questão é, no mínimo, polêmica e, se somarmos a quantidade sempre recorde de carros e motos, se vê o quanto qualquer medida que afete o trânsito afeta significativamente a vida dos paulistanos.

Nos últimos meses, a redução de velocidade máxima permitida nas marginais Tietê e Pinheiros e em diversas avenidas arteriais e coletoras da cidade de São Paulo foi alvo de inúmeras notícias com a população e especialistas divididos sobre a polêmica medida. As marginais Tietê e Pinheiros tiveram a velocidade máxima reduzida de 70km/h para 50km/h na pista local, de 70km/h para 60km/h na pista central e de 90km/h para 70km/h para veículos leves (ou 60km/h para veículos pesados) na pista expressa. A avenida 23 de Maio, cujo limite já havia sido reduzido de 80km/h para 70km/h em 2010, sofre nova redução para 60km/h. E as avenidas coletoras tiveram velocidade reduzida de 60km/h para 50km/h ou, em alguns trechos, para até 40km/h até o final de 2015. Ainda, houve a criação da área de 40km/h em ruas e avenidas do centro e de algumas ruas comerciais com muita aglomeração de pedestres.

Os radares fixos e móveis, por sua vez, sofreram um acréscimo substancial que só a Prefeitura de São Paulo sabe e só o cidadão sente no bolso, principalmente quando vem de radares escondidos em meio a árvores, viadutos e até varais de radares foram criados. Só nas marginais, são mais de 2 mil multas por dia no ranking de radares e, dentre todos os radares da cidade, são mais de 2 bilhões de reais em multas que ninguém sabe para onde vai – e a Prefeitura também não diz, mas agora o Ministério Público abriu investigação para saber. Há rumores que os agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) ganhariam melhorias em suas áreas de atuação se lavrassem mais autuações, uma espécie de “meta de multa”.

Na semana útil, leia-se segunda à sábado das por volta das 05hs até umas 23hs, é consenso não existir condições que permitam ultrapassar a velocidade máxima das vias e trafegar com segurança – quem consegue andar a 100km/h na Marginal Tietê em um dia de semana e se sentir seguro? -, até pela necessidade de haver um maior espaçamento dos veículos à medida que a velocidade do tráfego aumenta. Nessa situação, a redução de velocidade máxima das marginais e das vias arteriais não atrasa os motoristas, mas cria condições para aumentar a sobrevivência em caso de impacto por acidente – quanto menor a velocidade, menor o dano causado ao alvo – e aumenta a velocidade média de tráfego e a capacidade das vias, argumentos principais do Prefeito Fernando Haddad (PT) e do Secretário Municipal de Transportes Jilmar Tatto (PT) para justificar a medida.

Velocidade do veículo e distância de frenagem

Velocidade do veículo e distância de frenagem

De fato, estudos mostram que a capacidade máxima de tráfego da via é atingida na metade da velocidade máxima para a qual a via foi projetada e, neste contexto, reduzir a velocidade não deve criar problemas de capacidade de absorção de veículos nas marginais e avenidas atingidas pela redução da velocidade máxima regulamentada. A ideia é que uma velocidade menor em vias de trânsito rápido não saturadas permite uma distância menor entre os veículos e mais veículos ocupando uma mesma via, melhorando a fluidez e a velocidade média. Cabe destacar que menor velocidade máxima e maior velocidade média só melhora mesmo quando a via não está entupida de carros, o que muitas vezes não é verdade.

Por outro lado, nos horários de menor movimento é nítida a sensação de que estamos andando devagar e que seria possível andar nos limites máximos de velocidade antigos na maioria das vias, em especial na pista expressa das marginais e nas vias arteriais com três ou mais faixas de rolamento. Ainda, uma velocidade máxima reduzida traz mais riscos de assaltos e até arrastões aos motoristas, conforme lista de 79 argumentos da OAB pedindo que fosse revertida à medida na Vara da Fazenda Pública da Capital Paulista.

Acredito que caberia, portanto, uma posição de se criar um meio termo ao invés de adotar reduções tão drásticas, principalmente em avenidas com mais de duas faixas para veículos ou nas próprias pistas expressas das marginais. Quase dois meses após às medidas é difícil andar em São Paulo a noite ou com trânsito livre com o pé no freio a todo momento para evitar uma multa, principalmente na pista local das marginais Tietê e Pinheiros. E as multas, por sua vez, chegaram a níveis recordes por toda a cidade: 6.098.229 multas só no primeiro semestre de 2015 na cidade e mais de 10,6 milhões de multas no ano de 2014, além de uma previsão de arrecadação de 1,19 bilhão de reais em 2015 somente com multas.

O Código Brasileiro de Trânsito (CBT) estabelece a velocidade máxima de 80km/h para vias de trânsito rápido como as pistas expressas das Marginais Pinheiros e Tietê, um valor médio entre a redução adotada e o limite até então vigente. Para as pistas locais, 60km/h parece um bom limite de velocidade e compatível com a não travessia de pedestres – critério adotado para o novo limite de 60km/h da Avenida 23 de Maio. Para as avenidas mais largas, como a Av. Washington Luís / Av. Moreira Guimarães, Avenida Alcântara Machado (Radial Leste), Avenida dos Bandeirantes e Avenida Água Espraiada, por exemplo, o limite de 60km/h parece bastante razoável em função das condições de tráfego mais favoráveis, enquanto a redução de 50km/h em avenidas como a Santo Amaro, 9 de Julho e diversas outras, além da criação da área de 40km/h no centro, parecem boas medidas em função das diversas travessias de pedestre e faixas pouco espaçadas.

Alguns estudos já realizados para avaliar a redução de acidentes na capital paulista e em rodovias e trechos urbanos no Estado de São Paulo mostraram redução de acidentes em 2016 comparado a 2015. A Prefeitura comemorou e atribuiu o fato às suas medidas de redução de velocidade, mas ao que parece o desaquecimento da economia tirando carros das ruas e as campanhas de conscientização de motoristas são os maiores responsáveis por poupar vidas. Ao mesmo tempo, nunca se arrecadou tanto com o trânsito de São Paulo: em 2015 foram R$ 1,1 bilhão em multas pagas pelos motoristas na cidade de São Paulo e a Prefeitura prevê aumento de 11% no valor em 2016.

 

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Autor Thiago Rodrigo Alves Carneiro

Thiago Rodrigo Alves Carneiro, 36, é paulistano do Campo Belo, sócio-proprietário de A vida é feita de Desconto e professor graduado em Matemática e Estatística no IME-USP.

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